A caixa do luto
Por B. | 08/05/2021

Há anos, eu guardava uma caixa de materiais de arte que foram de um tio meu. Finalmente usar esses materiais, esse ano depois de tantos outros, foi resultado de um processo muito pessoal e intenso de, com muita terapia, trabalhar um luto que ainda estava engasgado. Meu tio tinha uma invejável coleção de HQs que ele me mostrava com paixão em conversas que definiram meus desenhos até hoje. Ele ajudou a plantar no fundo da minha consciência a sementinha que mais tarde me fez entrar para o time dos comedores de planta, o que ele não chegou a ver acontecer. Enquanto ele estava vivo eu não tinha a maturidade para entender quão profundo, revolucionário e necessário era seu discurso de que a humanidade é sim constituída de uma maioria de pessoas boas, que querem o bem e que o fazem, que não podemos deixar o barulho dos atos ruins poluir nossa capacidade de enxergar isso. Ele carregava o estigma de figura exótica com invejável tranquilidade e seu sempre inabalável senso de humor. Uma vida relativamente breve vivida com uma indiscutível e raríssima intensidade.

As canetas e lápis herdados são uma das várias formas em que ele marcou o que eu faço sem saber.

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