Belzebu é amor
Por B. | 21/02/2020

Na madrugada do último dia 18 nosso amigo e anfitrião das visitas, Belzebu, nos deixou depois de uma batalha épica contra a FELV. Belzinho ganhou esse nome quando apareceu com seu berro gutural numa noite em frente ao prédio onde moram nossos amigos Amanda e Mário. Atendendo prontamente ao chamado de Amanda, sua primeira mãe, recebeu carinho e foi tratado de sua desidratação, desnutrição, pulgas e da patinha e testículo necrosado, resultado de um atropelamento que sabe-se lá quando aconteceu. Frequentemente me perguntava – e provavelmente vou sempre me perguntar – qual é a história que ele carregou até esse momento, que a barreira linguística interespécies jamais nos permitiu descobrir. Como aconteceu o atropelamento e quanto ele vagou com uma patinha calcificando o osso torto? Quem ele chamava na janela, à noite, nos primeiros meses aqui em casa? Como aprendeu a roubar pão das mãos humanas, como fazia durante nossos lanches? Quando descobriu que dar carinho é a melhor forma de viver e sobreviver?

Na noite em que buscamos Belzebu na casa da Amanda, passamos antes de chegar em casa em uma clínica veterinária para fazer testes, que deram positivo para FELV. Choramos pela primeira vez por ele, que tinha acabado de conquistar nosso colo. Me lembro que a jovem veterinária nos perguntou “Vocês ainda vão ficar com ele?” Claro que iríamos, não era possível, para nós, nenhuma outra resposta. E naquele momento uma promessa de lealdade foi feita, sem nenhuma necessidade de miado ou português. Como é o caso de tantas outras doenças que acometem qualquer espécie, inclusive quando é a nossa, a FELV é encarada frequentemente com muito preconceito e desinformação. É uma doença comum transmitida entre gatos através da saliva, que pode se manifestar depois de alguns anos suprimindo o sistema imunológico e causando linfomas. Tem vacina, mas é rápida, fatal e não tem cura. Além do privilégio de conseguir arcar com as quimioterapias e medicações, tivemos a sorte imensa ter ao nosso lado a Dra. Lígia Frossard, indicação da querida Cláudia, que trouxe a possibilidade de um tratamento, ainda em fase experimental. Belzebu atravessou com doçura inabalável todas as fases da luta. Os poucos meses de sobrevida previstos se transformaram em quase dois anos de muito cuidado e renderam uma nova esperança de vida melhor para tantos outros gatinhos. Ele não sabia dessa parte, mas de alguma forma tinha a nítida noção de que tudo aquilo, agulhas, sonda, comprimidos, era um grande ato de afeto profundo. Mais do que uma sagaz médica de felinos, Ligia foi a quarta mãe de Belzebu. Foi mais uma imensa benção do acaso que nossa guia por essa jornada compartilhasse tanto amor, transformando um tratamento em algo, na falta de uma palavra melhor, infinitamente mais humano.

Ao todo, ele esteve na nossa casa por 4 anos. Achei que escreveria mais sobre FELV mas não consigo me delongar sobre isso quando o que mais se pode falar sobre Belzebu é como era linda e poderosa a presença de um serzinho zoeiro com pouco mais de 4 quilos que literalmente estalava de amor incondicional.

Belzebu – Belzinho, Belzi, Belzeba, Bebel, The Cat Who Say Mi, Mimito, Nosso Pequeno Milagre da Ciência, Príncipe, Menino – deixa dois outros gatos que ainda o procuram pela casa, quatro mães, uma equipe de laboratório que vibrava por ele sempre que chegava um novo pedido de exame, veterinárias e alunos de Veterinária que acompanharam sua história em tom de torcida, gateiras e seguidores que trocavam afeto legítimo à distância, vizinhos que visitavam regularmente sua janela preferida, incontáveis pessoas convertidas em seus amigos imediatamente após o primeiro contato, amigos que repensaram sua relutância por felinos diante da prontidão e pureza de seu carinho, deixa também em todo os nossos corações a lição na prática de que se abrir para a troca do que é bom rompe barreiras, eleva a vida e faz da finitude um detalhe. Já diziam o versos que se repetem em algumas músicas jocosas em francês, “a morte é a morte, mas o amor é o amor.”

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