Alguma luz
Por B. | 01/05/2021

(Enviei esse texto ao urbansketcher.org junto com os sketches postados no dia 22 e imediatamente recebi a resposta automática de que não estão recebendo posts novos nem novos correspondentes. Vou enviá-lo para o mundo através do Blog então).

Pelo bem da nossa saúde mental, eu e minha esposa tivemos a idéia de passar uma hora da parte da manhã sentades na área comum do nosso prédio. Nós somos pessoas de “lá fora”, sabe. Nossas mentes ainda não se acostumaram com a falta das caminhadas, das ruas, do barulho, das pessoas e das noites sem fim dançando com nossos amigos. O covid veio e nós passamos um ano tentando aprender como ficar sãs assim, quietes em casa. Ainda estamos tentando então talvez aquela área, apesar de ainda estar na parte de dentro do portão, possa ser uma dosa segura de “lá fora”. Aí eu coloco no bolso o kit de sketch atual, o mais minimalista que já tive e ainda não tive chance de usar em um encontro com minhes companheires sketchers do grupo local. Uma caneta tinteiro com tinta preta, um pincel de água, uma caneta branca de gel e meu caderninho minúsculo. Só isso.

Nós nos sentamos lá, minha esposa abre um livro, eu escolho uma parte de “lá fora” e começo a desenhar. Algumas coisas passam pela minha cabeça. Eu penso em como eu comecei a fazer urban skecth para melhorar os cenários das minhas ilustrações sci-fi, e agora nós estamos vivendouma distopia real. Eu penso na minha cidade, sua famosa vida noturna sem fim de bares e como é que eu pude realmente achar que as pessoas aqui iriam ficar em casa, que ingenuidade a minha. Eu penso naquela noite em 2018, quando nós nos encontramos com outras pessoas LGBTQIA como nós, amigues e estranhes, em um apartamento onde nunca estivemos antes e nós choramos todes juntes porque o obscurantismo havia ganhado as eleições, e agora as decisões negacionistas desse governo levou o Brasil a mais de 3000 mortes por dia, sem perspectiva de nenhuma solução. Eu vejo pessoas andando na calçada sem máscara e penso em nosses amigues que fizeram seu melhor para se cuidas e mesmo assim ficaram doentes e eu penso em nossos parentes que morreram. O medo e a decepção estranhamente se misturam a luz aconchegante e quentinha do sol da manhã enquanto eu capturo um pedaço do país perdido que habito. E então nós voltamos pra dentro, pra enfrentar mais um dia de paciência e esperança vacilante. Fiquem segures, se cuidem.

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(I sent this text to urbansketchers.org with sketches posted on 22th and imediately received the answer that they’re not “not reviewing USk blog guest posts or considering new correspondents at this time”. So I will send it to the world through the Blog).

Some light

For the sake of our mental heath, me and my wife had the idea of spending an hour in the morning sitting at a common area of our building. We are both “outside” people, you know. Our minds still didn’t get used to miss the walks, the streets, the noise, the people and the endless nights dancing with our friends. So covid came and we spent an year trying to learn how to stay sane like this, quiet at home. We are still trying, so maybe that area, though is still inside the buiding’s front door, can be a litttle safe dose of outside. So I put in my pocket the current sketch set, the most minimalist I ever had and I didn’t get the chance of use it in a encounter with my fellow sketcher from the local group. One fountain pen filled with black ink, one waterbrush, one white gel pen and my tiny sketchbook. That’s it.

We sit there, my wife opens a book, I choose a part of “out there” and start drawing. Some things come to my mind. I think about how I first get into urban sketch to improve the backgrounds of my sci-fi illustrations, and now we are living a real distopia. I think about my city, it’s famous non-stop night life of bars and how come I really thought people here would really stay home, how naive of me. I think about that night in 2018, when we met other LGBTQIA people like us, friends and strangers, on a appartment we never went before, and we cried all together cause the obscurantism won the presidential elections, and now this government’s negationists decisions drove Brazil to more than 3000 deaths per day, without perspective of any solutions. I see people walking the sidewalk without a mask and I think about our friends who made their best to take care but got sick, and I think about our relatives who died. The fear and the disapoitment oddly mix with the cozy warm morning sunlight as I capture a piece of the lost country I habit. And then we go back indoors, to face another day of patience and stumbling hope. Stay safe, take care.

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